Ilustrações: Stina Persson




Quando eu tinha 14 anos, sem nunca ter beijado na boca, eu já tinha um sonho, uma projeção, um desejo que toda menina deve ter em relação ao seu futuro amoroso.
Eu sabia que quando eu estivesse pronta, o homem certo iria aparecer, o meu príncipe. Eu era romântica, mas nunca fui boba ou carente como minhas amigas.
Todas elas já tinham ficado com meninos, estavam sempre marcando "ficadas", aqueles encontros premeditados,
com o menino que disse sim para sua amiga que foi até ele perguntar: você quer ficar com ela?
Nossa, como eu achava isso ridículo, teatral, desesperado.
Eu não aceitava essa maneira, que parecia ser a única, de beijar um menino. E isso me apavorava.
Por muitas vezes eu pensei que iria ser virgem por muitos e muitos anos. Será que aos 30 anos já terei beijado alguém?
Até porque ninguém queria mesmo ficar comigo, aquela menina feia, baixinha, de óculos, nada popular. Era até um alívio.
Eu queria um encontro casual, delicado, mágico.
O momento certo e com o menino certo iria fazer nossas bocas se aproximarem, e então, sem medo, eu iria me deixar beijar.
Infelizmente não foi como eu imaginava, foi inclusive dentro do roteiro batido de todas as minhas amigas. Eu dei o que ele queria,
mas também recebi o que eu tanto almejava: o título de "já beijei na boca".
Três anos se passaram desde lá, alguns meninos, algumas paixões platônicas, muitos beijos.
Até o fatídico momento da primeira transa. E aquela menina romântica de 14 anos volta à cena.
Todas as outras meninas já tinham transado, algumas até já tinham abortado. E eu lá, horrorizada com tudo aquilo.
Eu devo ser patética aos olhos do mundo, era só o que eu pensava.
Mas esperei. Esperei até o homem especial de verdade aparecer, e só assim eu consegui me entregar.
Nem que eu quisesse acelerar o acontecimento, eu teria conseguido. Não seria qualquer um que entraria no meu corpo. E realmente não foi.
Hoje já faz mais de uma década desde aquele primeiro beijo, e aquela menina continua aqui.
Romântica, sonhadora, exigente, medrosa.
Tantos homens, tanto sexo, tantas aventuras, loucuras até, não conseguiram manipular aquela menina dentro de mim.
Ela tem uma personalidade forte, e eu me orgulho disso.
Ela engana até.
Ela vive dentro de um corpo extremamente sexy, que minhas amigas de infância não reconhecem quando vêem.
Ela seduz, ela paquera, ela se excita, tem taras secretas e vive intensamente seu sex appeal.
Mas ela continua a mesma, não existe outra versão mais atualizada. Ela é exatamente a mesma menina virgem de 14 anos de idade, esperando seu príncipe encantado.




Não sei ainda como deixei ele invadir o meu castelo. O que era para ser uma fortaleza impenetrável, foi invadida por mil cavaleiros fortemente armados.
Tantas máscaras, tantos truques, tantos súditos, e de repente, ele estava ali, sendo apresentado à Bela, à Beladona, e todas as suas armas e seus segredos.
Eu estava exposta, na cama de autópsia, na vistoria do Detran, eu estava sob a lupa de um perito.
O que era uma rainha, tornou-se uma vassala, tomada de tesão e desejo.
Os olhos dele, o olhar, as palavras, algo nele era tão mágico e tão sexual. O que eu mais queria era ser a sua escrava e realizar todos os seus desejos.
E lá estava eu, como em um programa de auditório, no silêncio da cabine num daqueles jogos de perguntas no escuro:
- Bela, você aceita trocar a paz em que está vivendo o seu coração por uma paixão que ninguém sabe onde irá parar?
- Siiiiimmmm!!!!!

E como num passe de mágica nós dois estávamos juntos, finalmente. Ao vivo, a cores, sem pixels nem web cam.
Apesar da espessa barreira de gelo que ainda derretia entre nós, o fogo que me queimava por dentro avisava que as próximas horas seriam bem mais interessantes.
Afinal, não havia plano B.

Eu estava intimidada por aquele homem que mais parecia um príncipe encantado que veio me resgatar do sofrimento.
Por favor, me deixem dramatizar um pouco a cena.
Nos beijamos. A boca dele era um oásis. Me desarmou completamente.
Sentei no seu colo, senti o cheiro da sua pele, peguei nos seus cabelos. Tirei a minha blusa.
Ele me chamou de sua rainha. Ele me ganhou tão fácil. Não pensei que eu fosse tão vulnerável.
Eu queria meu peito na sua boca, eu já salivava de prazer. Esqueci tudo, me entreguei.
Tirei minha calcinha, fiquei de quatro pra ele, não precisava falar nada, os nossos corpos se misturavam em uma cena perfeita.
Eu queria mais espaço em mim para caber mais dele. Eu queria ter mais pele, mais saliva, mais orifícios. O que eu tinha não me bastava.
E ele me apertava de uma maneira quase sufocante, me penetrando tudo o que podia, e eu ficava ainda mais enlouquecida, tudo que eu queria era ele dentro, fundo, com força.
O seu gozo era doce, lambuzou o meu rosto.
Eu fui a mais puta que já me vi, pra ele.
Vinte minutos, meia hora, se passaram 2 horas eu nem notei. Estávamos ali, suados, cansados, desconhecidos. Amantes.
Meu tesão não se saciava, e o seu corpo nu, deitado, todo pra mim, era um chamado. Eu queria gozar nele, pra ele, com ele.
Em cima, sentada, com meus peitos enchendo a sua boca, as suas mãos segurando a minha cintura, minha bunda cavalgando freneticamente no seu pênis,
seus olhos me penetrando ainda mais fundo, eu tremia de prazer, e gozei tanto, e tão demorado, como com meu primeiro namorado, que quando acabou,
eu só consegui deitar minha cabeça no seu peito e sentir o seu coração batendo acelerado.




Meu relacionamento mais parece um filme do Woody Allen: um roteiro original, diálogos inteligentes, mas um romantismo kitsch demais.
O que me intriga é que para Duk está tudo perfeito, parece que ele já nasceu dizendo: - Bela, te amo!
E isso me sufoca.
Minha vida tem sido um segredo só meu.
Estou aqui sozinha, assistindo Sansão e Dalila. "Você ainda me teme mais do que me ama."
Preciso de uma bebida.



Não importa o quão bonito, carinhoso e rico seja seu namorado. Chegar em casa, na sua própria casa, sozinha, é muito bom. Lavar o rosto, esquecer a maquiagem, colocar aquela calça de pijama ridícula, ser um clichê.
Talvez eu seja egoísta, espaçosa, autoritária. Uma chata mesmo. O que me deixa ainda mais na razão de querer morar sozinha.
Às vezes dá medo, eu confesso. Medo da solidão gostar mais de mim do que eu dela. Medo de eu estar permitindo que ela entre e tome conta da minha vida.



Chegamos em São Paulo no calor das 13 horas. Um lindo céu azul me dava as boas vindas. Como se dissesse: "calma Bela, não foi tão mal assim. A vida é linda, imensa, a vida é toda sua!"
E eu me sinto melhor. Um pouco patética também.
Duk sempre tão carinhoso carregou minha bolsa até chegarmos ao táxi.
- Não acredito que você trouxe o lanche do avião Bela! Por isso essa bolsa está tão pesada.
- Sou uma mulher prevenida. Quer uma água?
- Não linda, obrigado.
Entro no táxi com minha bolsa a tiracolo. A bolsa aberta quase deixa cair os pacotes de bolachas, chocolates e alguns copinhos de água.
E eu fico pensando que realmente não preciso carregar tantas coisas. Não preciso ter medo de uma sede inesperada ou uma fomezinha fora de hora.
Viver desprevenida é mais emocionante.
Descemos do táxi em frente ao prédio do Duk. Enquanto ele pagava eu dei um jeito de deixar minhas guloseimas no táxi, sem ninguém perceber.
Era só o que faltava o taxista ainda gritar: - moça, você deixou cair suas comidas!



Capítulo 4


O outro dia. Hoje é o outro dia. Viva o novo!
Longe de qualquer certeza, eu tento fazer as pazes com minha consciência e buscar argumentos que me deixam digamos, mais relaxada.
O dia será tenso hoje. O dia será cheio de questionamentos existenciais, de teorias, de perguntas sem resposta.
Hoje eu estou indo embora. Voltando para o Brasil até que enfim. E a história que contarei dessa viagem será bem diferente.
Aaii, chega de tanta culpa! Foi só sexo, porra.
Que tipo de mulher se sentiria culpada por ter transado ( e gostado ) com outro homem? Não eu, com certeza.
Estou aqui arrumando minhas malas.
Roupas para todo lado, calcinhas molhadas no chuveiro, carregador de celular na gaveta da cozinha, potes quase vazios de cremes ( mas que não posso deixar de levar ).
E sempre aquela sensação de que irei esquecer alguma coisa.
Se bem que dessa vez eu vou mesmo deixar alguma coisa...



Deitada em minha cama, distante de qualquer imaginação profana que me é comum, até o telefone tocar.
Truuuuuuuu, truuuuuuuu, truuuuuuuu. Não vou atender. Dez minutos depois e o telefone grita de novo.
- Alô
- Bela?
- (ai...) Sim...
- Sabes quien és?
Socorro! Chamem os bombeiros, o 911, me belisquem, um balde de água fria, eu não acredito. Sé fuerte Bela.
Ser forte para mim, o que significaria... Deixar me levar pelos encantos sexuales
desse homem, correndo todos os riscos, inclusive o da minha consciência inimiga; ou dizer simplesmente não,
ignorar a pulsação, me fazer de desentendida e me satisfazer em tê-lo apenas em pensamentos?
Minha vida parece um constante dilema. Quem está me colocando à prova? Onde está a resposta nessas horas?
Posso dizer que a intenção foi boa, afinal eu amo o Duk e pensei muito nele.
Mas não que isso me impedisse de entrar naquele banheiro da piscina térmica com o espanhol.
Foi rápido assim mesmo, sempre fui assim com minhas decisões.
Posso sentir ainda o gosto da boca dele, os olhos dele parecendo transbordarem de prazer, as mãos, a pele diferente da que toco todos os dias.
Estabamos un poco nerviosos, pero enseguida al empezar hablar, no sé fue algo extraño, foi bom, foi tranquilo,
como se ninguém estivesse me julgando naquele momento.
Ele fechou a porta e eu já estava pronta, como uma puta. A boca dele veio no itinerário perfeito, o mais rápido possível.
Aquele gosto, aquele beijo, aqueles lábios grossos que eu não parava de morder.
Eu já estava em cima da pia, com as pernas abertas, envolvendo aquele corpo quente e mantendo-o o mais próximo de mim.
E sentir aquela rigidez toda para mim, fez sentir-me a mais puta das mulheres, a mais desejada, e eu devia todo aquele prazer a ele.



Apesar da enorme distância que existe entre meu coração e meu órgão genital, dessa vez parece que não fez muita diferença.
Não sei qual dos dois está gritando: Bela! Acorda menina! Agarra esse homem!
Acho que isso nunca havia me acontecido. Estou no piloto automático. E o pior, não estou nem pensando em tomar controle da situação.
Eu sou forte, sou decidida, sou segura e persistente, o problema é que sou tudo isso mas nos momentos errados,
nos momentos da vida em que tudo que eu precisaria era ficar de boca fechada e pronto.
E ele é tímido. Além de tudo ele é tímido. Hoje eu percebi o quanto. Eu já estava decidida a ignorá-lo, mas ele me trucidou.
Ele me pegou pela cintura, chupou meu pescoço, apertou o meu corpo, beijou a minha boca e me deixou molhada só com um olhar.
Passei por ele quando descia para ir ao supermercado. Sucos diet, barra de proteína, cigarros, Hersheys, absorvente, o espanhol!
Pronto. Já nem sabia onde estava indo. Quem sou eu agora? Pensa rápido Bela, que atitude eu havia planejado para esse momento?
Estou entregue e ele nem imagina.
Aquele sinal que ele fez de que vai me telefonar, de que não teve tempo, aquele aceno escondido,
um sorrisinho de satisfação e respeito ao abrir a porta para mim.
Estava novamente caminhando pela rua sem saber aonde ir. Apenas pensando e deixando aquela sensação mágica causar reação pelo meu corpo.
Será que o amante platônico vai se tornar amante-namorado? Só o piloto automático poderá saber.



Morar em um hotel tem disso, descer toda santa manhã para se alimentar.
Eu odeio que todos saibam a hora em que me levanto para tomar café.
Pode-se tirar muitas conclusões com essa informação. E ainda tenho que ver o espanhol.
Desde aquele dia não nos falamos. Ele não me ligou. Impossível ele não ter tido 10 minutos nessas últimas 48 horas.
Não sei mesmo onde enfiar a minha cara.
Difícil encarar um homem quando não vivemos exatamente o queríamos com ele. Eu fico sem saber para onde olhar,
sem saber se sorrio ou não, como balanço os braços. Pior, fico sem saber se deixo ele entrar na minha vida ou não.
Só tenho conseguido comer um pedaço de mamão, e claro, um suco de laranja. Deve existir outra bebida nessa cidade, mas eu não me importo.
Meu café da manhã tem sido solitário. O Patinho sai muito cedo, me dá um beijinho na testa (sim...) e só me liga na hora do almoço.
Ele tem trabalhado muito aqui. Ou me traído bastante.
Sei que eu estou feliz. Confusa mas feliz. Sozinha mas feliz. Com a consciência pesada mas feliz. Quer a receita? Não leve nada muito a sério.



Eu gostaria de encontrar agora a saída de mim mesma.
Deve haver um lugar por onde a gente passa, e se livra de todas as consequências das burradas que fazemos.
Um lugar onde possamos assistir de camarote o nosso corpo vivendo. Deve existir algo assim, tenho certeza.
Talvez esteja junto ao pote de ouro no fim do arco-íris.
Não que eu seja imatura para resolver meus próprios problemas. Eu até gosto de errar, de arriscar, de pagar pra ver.
Mas eu acho que devíamos ter sempre uma segunda chance. A vida é tão curta que se eu for aprender com os meus erros,
não terei tempo de acertar. Queria saber como é agir da maneira certa. Falar a coisa ideal no momento exato.
Fechar a boca quando é a hora. E abrir só na hora certa também. Queria ver a mim mesma por outros olhos.
Será que eu iria rir? Ou chorar? Será que eu sentiria vergonha das coisas que faço?
Ou será que eu morreria de vontade de voltar pro meu corpo?
Pronto. Tenho que parar de pensar besteira. O telefone está tocando e eu tenho que ir. Um momento introspectivo rápido como sempre.



Não era de se esperar algo tão sem sal eu sei. Talvez eu tenha exagerado um pouco no romantismo (ou erotismo) da coisa.
Talvez nem fosse tudo aquilo que escrevi aqui.
Ou talvez eu esteja apenas me sentindo uma derrotada sem saber onde foi que perdi. Não era isso o que eu esperava.
Certo que qualquer mulherzinha diria que ele foi educado, charmoso e cavalheiro. Que tudo correu bem para uma primeira aproximação.
Mas sabe o que eu queria? Vou fingir que ninguém está lendo. Eu queria que ele me puxasse pelo braço,
daquela maneira brutal e delicada que só ele eu imaginava ser, e falasse algo bem sujo no meu ouvido,
alguma coisa muito safada tipo, - eu preciso te comer agora! Eu iria dar um sorrisinho resposta pra ele e nós sairíamos dali soltando faíscas.
Queria que ele me levasse pra dentro do hotel, em alguma área de funcionários, um canto bem perigoso, me empurrasse contra a parede,
chupasse muito forte meu pescoço enquanto fosse levantando a minha saia. Queria que ele arrancasse a minha calcinha
e esfregasse aquela mão em mim, queria sentir seus dedos entrando, sua língua me molhando.
Queria ficar pensando que ele é o mais cafajeste que já conheci, que nunca me senti tão usada.
Ufa! Só faltou eu gozar. Meu lado masculino é terrível. Do tipo que não presta mesmo.
E foi pensando coisas desse tipo que eu nem sei aonde fui parar. O hotel já havia sumido de vista mas eu continuei a caminhar.
Parei em uma cafeteria mravilhosa e entrei pra comer alguns milhares de calorias. No segundo croassaint eu já nem lembrava dele.
Estava com saudades do meu patinho e liguei pra ele me buscar.
Vinte minutos depois meu maridinho buzina da calçada. Me senti tão segura e apaixonada que cheguei a pensar se tudo não passou de um delírio.
Ai, eu amo meu patinho.



Que boba eu. Uma das grandes vantagens em ser mulher é não precisar ter nada inteligente na ponta da língua nessas horas.
Ainda mais quando você tem outras funções mais importantes para ela. Trocamos poucas palavras e alguns sorrisos.
Ele já sabia que eu sou brasileira. Perguntou sobre o Brasil e disse ter muito interesse em conhecê-lo. E ele me tocou.
Homem esperto esse. Se ele soubesse o que eu senti quando aqueles dedos tocaram o meu antebraço...
Convidei ele para dar um passeio, me mostrar uns lugares legais da cidade, e ele disse que só poderia sair às 20h. Droga.
Mas ele pediu meu telefone e disse que assim que estivesse livre me ligaria para ser meu guia turístico. Uau! Essa eu preciso contar para Mimi.



Hoje acordei e o Duk já não estava. Primeira vez que acordo sozinha nesse hotel. O dia lindo, quente e pedindo uma aventura.
Fui pro banho antes de qualquer coisa. No espelho do banheiro estava um recado dele: "Minha Bela, tão bela dormindo que preferi não acordar.
Chegarei umas 20h hoje. Me liga.Te amo." Só consegui pensar no que eu ficaria fazendo até às 8 horas.
Depois do banho, de fio-dental e com meu cigarro na boca, liguei pra recepção, que mandou eu ligar pro restaurante, pra pedir meu café.
Café não, almoço. Já é 1 hora da tarde. Rellena de foie gras y ternera estofada con vino tinto y arropada con queso parmesano,
tomate fresco confitado, rábanos, rizosd de cebola, escarola y mostaza francesa. Li isso no cardápio e me pareceu bom: Burguer Royale.
Só fiquei desconfiada dos tals rábanos. Mas tudo bem. Quando a moça falou o preço o rosto do Duk me veio direto na mente,
com aquela voz safada dizendo que eu poderia pedir o que bem quisesse. Então tá.
Meia hora depois e batem na porta. Minha refeição desconhecida chegou rápido, nem estava com fome.
Abri a porta com o roupão aberto, aparecendo meu sutiã e minha calcinha de renda, torcendo para que fosse aquele hombre, mas não era.
Era uma senhora, tipo aquelas que sempre são assassinadas em filmes de suspense. Fiquei com pena dela.
Bem, o meu almoço. Era realmente o que eu pensava, um hambúrguer! O detalhe estava na espessura do negócio,
devia ter mais de 10 cm, o que me impossibilitava de comê-lo apenas com as mãos, o que é o mais divertido. Tive que recorrer ao cuchillo y el tenedor.
Por Dios, cuñanto esfuerzo!
Estava uma delícia. Depois de comer me deitei na cama, só empurrei o prato pro lado e quase peguei o controlo remoto da tv,
não fosse aquela janela aberta, com aquele céu azul, e aquela luminosidade linda. Fiquei um bom tempo ali, olhando aquela cor, pensando em tudo.
Consegui refletir sobre algumas coisas, sem chegar a conclusão alguma. Aliás, que eu nunca chego.
Essas cenas de descobrimento interior que eu vejo nos filmes para mim são pura utopia.
Quanto mais eu penso em mim, nas minhas dúvidas, na minha vida, mais vontade de me atirar pra uma barra de chocolate eu tenho.
E acreditem, isso não traz boas consequências.
Mas isso com certeza não acontecerá hoje. Alguma coisa me diz que hoje Madri é minha.
Com uma saia vermelha até o joelho e uma blusinha branca, cabelos soltos e um perfume tentador estou pronta para bancar a turista.
E só precisaria um olhar muito safado, e claro, o funcionário do hotel estar pelo caminho quando eu descer, para essa tarde acabar melhor ainda.
Impressionante como é rápido aprender espanhol. Duas semanas apenas e eu já cumprimento as pessoas no elevador.
O apitinho. A porta se abre no térreo, em uma lentidão angustiante. Onde estará aquele homem?
É só o que eu me pergunto caminhando em direção à rua fingindo ser a mulher mais segura de si que existe.
Parei na calçada, em frente a porta do hotel, com as feições nitidamente transformadas. Nem sinal del chico.
Peguei o celular na bolsa, os dedos já ligam sem ajuda do cérebro. No segundo toque meus olhos se paralizam e minha boca se abre lentamente.
Eu posso ser um clichê, mas juro, aquele homem eu nunca tinha visto igual. Um sorriso tão safado, tão safado que chega a ser inocente.
Uns olhos que me fisgam a última esperança de ser fiel e a joga na lata do lixo. Uma boca que eu posso sentir na minha carne, só de olhar.
Eu preciso aquilo. Não é questão de fidelidade e sim de sobrevivência.
- Bela?
- Bela, o que está acontecendo?
- Oi amor...
- O que aconteceu linda? Algum problema?
- Não Patinho, nada. Queria saber como você está.
Se existe alguma coisa no mundo realmente desafiadora nessas horas é ser mulher.
Não que homem não traia, mas homem não se apaixona assim tão fácil, assim por mais de uma ao mesmo tempo.
E é um sentimento tão solitário, tão sofrido mas tão bom quanto fazer uma tatuagem. Homem quer sexo, prazer e variedade.
Mulher quer sentir seu coração doer.
- Mas mesmo assim acho que vai dar pra chegar cedo.
- Aé? Humm, que bom.
- E você almoçou o quê?
- Hambúrguer. Do hotel mesmo. Muuuito bom.
- Bom é você.
- risos
- Estou louco de saudade.
- Eu também.
- Tenho que desligar linda, daqui umas três horas eu te vejo.
- Ok Patinho, beijo.
- Beijão
Três horas? Se agora são 14h20min isso quer dizer que antes das 18h ele vai estar aqui. Mas...Bom, não importa.
Nada mais importa. E eu coloco o celular na bolsa com um sorriso de quem está muito satisfeita.
Olho pra ele e ele continua me olhando. Um pouco mais sério agora, como quem quer ir direto ao assunto.
Eu me aproximo naturalmente, tenho que pensar rápido em alguma coisa para perguntar.



O que será de Bela agora? Apaixonada pelo namorado-marido, presa à sua maneira gentil e doce de demonstrar que é fiel,
mas louca para trepar com o funcionário do hotel.
Penso comigo mesma nesse tempo todo que passo sozinha nesse quarto de luxo: estava eu lá, no terceiro mundo, quieta e satisfeita,
e agora, entre milhões de outros lugares para estar, estou aqui, na Espanha, no mesmo hotel do homem que protagoniza meus pensamentos mais sacanas.
Do homem que me dá calafrios quando me olha. Do homem que eu sempre imaginei ser o meu princípe encantado ( entenda-se por o comedor perfeito ).
Será o destino? Será que isso poderia ser previsto por uma cartomante? Pois se sim, minha consciência fica muito mais tranquila. Ai, ai.
Que delícia se sentir uma vagabunda prestes a cometer um ato pecaminoso.



Capítulo 3

Aqui estou eu, em terras espanholas. Madri. Fascinada, encantada, admirada. Esse lugar é realmente lindo.
Dizem que a noite aqui é uma das mais vibrantes do mundo E as pessoas são lindas. Homens fortes, morenos, cheios de pêlos sobre os olhos, uma loucura.
Desde que chegamos tenho ficado a maior parte do tempo sozinha. Duk está cheio de trabalho, e eu, cheia de coisas para conhecer.
Mas já vi que a cidade é super segura. Na primeira noite que fiquei sozinha desci para comprar uns chocolates.
Já estava super tarde e tinha várias mães caminhando pelas ruas com seus filhos.
Pessoas sozinhas parecendo quererem companhia, meninos passeando com seus cachorros. Cenas quase surreais.
E ainda descobri que a Espanha recebe cerca de 50 milhões de turistas por ano e é o maior produtor de laranjas do mundo.
Estamos no hotel Bauzá. Sofisticado, em estilo avant-garde, com camas confortáveis e decoração em tons pastél.
Mas o que é lindo mesmo é um cidadão espanhol que trabalha nesse hotel.
Um olhar que me deixou sem fôlego. E eu como boa turista, pretendo conhecer a fundo as belezas do lugar.



Eu estou apaixonada pelo meu namorado-marido. Sim, agora o Duk é um namorado-marido.
Encaixei ele nessa categoria, visto que em ambas, se separadas, ele não cabia. Vejam comigo: ele não mora comigo: namorado.
Ele praticamente me sustenta: marido. Nós fazemos sexo por telefone: namorado.
Vamos passar 3 meses juntos na Europa devido viagem a trabalho: marido (todas alternativas analizadas sob a lente do amor!).
Ele me manda flores: namorado. Nós fazemos planos pro futuro: marido. Nós brigamos por ciúmes: namorado.
Ele assiste futebol enquanto eu lavo a louça do jantar: marido.
E eu? Sou uma namorada-mulher. Fica estranho.



Vou tentar explicar como estou me sentindo. Me sinto como um quebra-cabeça com as peças espalhadas pelo ar, perdidas.
Sei que uma hora elas voltam a se encaixar, não há o que eu possa fazer agora.
Sinto que assim como estou, não tem a menor possibilidade de eu agir de forma sensata e responsável.
Preciso olhar para cada peça antes e ver o que elas têm a me dizer. É como se a Bela estivesse multiplicada por dez, ou dividida por dez, não sei.
Ou seja, a responsabilidade sobre mim mesma está muito maior.
Nada preocupante porém, visto que esses últimos dias me encontro em total recolhimento. O mundo lá fora faz apenas barulho.
Não coloco o pé na rua há dois dias. E estou me sentindo bem.
Tomei os mais longos banhos de minha vida, reformei algumas roupas que estavam dadas como mortas, limpei os vidros e malhei um pouco esses dias.
Fiz pipoca de microondas e vi um filme hoje. O Duk me ligou e conversamos durante algumas horas. Voltei a ver o filme.
A comida da gata acabou. Vou dar o ar de minha graça no supermercado e aproveitar para tomar um ar.
Comprar flores , incensos e chegar em casa com um saco cheio de pães. Argh!
Meus planos estão feitos. Até os próximos dois dias.
Estou louca pra viajar. Primeio mundo, Europa, ar limpo e gente educada.
Ta-ta Brazil!



Apesar da onipotência daquele lugar eu estava tranquila.
Afinal de contas o Duk me ama, eu sou uma mulher segura e sabendo o que eu quero, a resposta estaria na ponta da língua.
A maneira como ele me olhava era uma fonte interminável de suposições.
Mas como toda garota esperta a minha cara inocente também incomodava.
- Quer mais vinho?
- Quero.
- Você está linda.
- Pensei que você não fosse dizer isso. Você está muito misterioso.
- ( risadas ) Misterioso? Pelo menos consigo disfarçar o nervosismo.
- Eu te deixo nervoso?
- Muito.
Dei uma risadinha e fui ao banheiro. Já vi que a noite seria longa.
E eu estava incapacitada de perguntar de uma vez qual o motivo daquele jantar. É, eu não sou nada romântica. Puts!
Essa ida ao banheiro foi uma ótima brecha. Ainda bem que eu pensei nisso. Preciso estar preparada, vou chegar na mesa e algo vai acontecer.
E lá fui eu, desfilando até a mesa com os olhos de uma águia procurando qualquer objeto em formato de presente feminino sobre a mesa. Nada!
- Demorei?
- Não. ( os olhos penetrantes e um sorriso lindo )
Bebemos a noite toda. A comida estava deliciosa e o humor dele mais ainda.
E em algum momento qualquer, entre uma gargalhada e outra, a voz dele surgiu mais séria e me fez prestar atenção.
- Bela, tenho uma coisa um pouco chata pra te falar.
Não acreditei no que eu estava ouvindo. Tudo isso pra dizer uma coisa "um pouco chata"?
- Terei que ficar 3 meses na Espanha a trabalho.
Ah, que legal. Um fora em grande estilo.
- Esse é o motivo do jantar então?
- Sim
- Entendi. A menina aqui precisa de certos cuidados pra não se quebrar né?
E você achou que um lindo jantar seria a melhor maneira de dispensá-la sem grandes remorsos. Um telefonema seria mais barato.
- Bela, não é nada disso. ( dando risadas )
- Bom, fique sabendo que eu sou mais forte do que você imagina. E já estou indo embora também.
Ele segurou forte a minha mão, que eu puxei e acabei atolando no prato de molho.
Foi o que eu precisava pra poder chorar um pouco.
- Minha linda, não seja boba, Eu não estou terminando nada. Eu só queria te convidar pra ir comigo.
Precisava te convencer a passar 3 meses na Espanha.
- Você gostaria que eu fosse junto?
- Muito.
- Quando você vai?
- Nós vamos daqui uns 10 dias.
- Vou pensar. Preciso falar com a mãe, preciso deixar a Monica Levi com alguém, preciso deixar as contas no débito automático...
- Você já decidiu pelo jeito.
- É, eu adoraria conhecer a Espanha.
- E as lojas de roupas da Espanha. ( muitos risos )
- risos
- Você é uma gracinha quando fica brava.
- É que você me assustou.
- Isso lhe recompensa? ( e ele colocou uma caixinha com um lindo laço rosa em cima da mesa )
- Duk! O que você comprou?
- Abra e veja.
Foi realmente uma sensação maravilhosa. Nada de casamento, Espanha, e ainda pra completar uma linda jóia.
- Nossa! Duk! Uau!
- Eu achei que combinaria com você.
- É o anel mais lindo que eu já vi.
- Que bom que você gostou. Assim eu ganho a noite.
- Olha! É maravilhoso! Obrigada Patinho...Você é um sonho sabia?
- Quero te ver usando só ele.
- Hummm
- Vamos indo?
- Vamos.
E foi mais ou menos assim que acabou a minha noite. Acabou não. Rolou muito sexo depois.
E eu com aquele brilhantão no dedo me sentia fazendo sexo a três.
Em qualquer posição que a gente estava, eu sempre procurava ficar olhando pra ele.
Me senti uma musa do cinema preto-e branco fazendo um filme pornô. Não sei, mas me senti assim.




Passei a semana toda praticamente pensando no que vestir para o tal " jantar especial ".
Sim, eu sou fútil, superficial, insensível e altamente perigosa.
Pensem que o lado bom de um jantar com motivos suspeitos é você usar aquelas roupas que estavam ali,
estocadas no seu guarda-roupas gritando pra dar um giro desde que você, com sua ânsia consumista, as levou daquela loja.
O Duk, para ajudar, me ligou apenas ontem. À tarde ainda.
- Oi linda.
- Oi patinho.
- Estava com saudades.
- Eu também.Onde você está?
- No escritório, tive alguns problemas hoje e ainda nem almocei.
- Sérios?
- Rotineiros.
- Hummm
- E você linda, não esqueceu do meu convite né?
- Claro que não, estou ansiosa. Você recebeu meu recado na secretária?
- Sim sim, ouvi apenas ontem à noite, cheguei muito tarde e preferi não te ligar.
- É, eu imaginei.
- Fica pronta que umas nove horas eu passo aí pra te pegar. Vou te levar no Fasano.
- No hotel? O restaurante mudou pra lá né?
- Sim, a gente ainda não conhece.
- ( putamerda ) Que chik! Preciso estar muito elegante.
- Você sempre está.
- Ok patinho, vou ter que desligar. Às 15h eu tenho manicure.
- Ficando ainda mais linda pra mim?
- :-) é...
- Ok, nove horas então, não se atrase moça.
- Claro que não. Beijo.
- Beijinho.


**********

Lá estava eu. Além de nervosa com o casamento, cof cof, o pedido de casamento,
ainda tendo que me preocupar com o tal restaurante dentro de um luxuoso hotel na área nobre da cidade,
projetado por dois famosos arquitetos a um custo de R$ 50 milhões. Que maravilha.
Sei que eram 20h e eu já estava brilhando. Parecia uma pata choca sentada no sofá,
com as mãozinhas entre as pernas e os pezinhos batendo, olhando viciadamente para o relógio, que insistia em me torturar.
O telefone toca. O homem não vem mais!
- Alô
- Nossa, estava grudada no telefone?
- Oi Mimi...
- Que voz é essa? Te atrapalho?
- É, um pouco. O Duk já deve estar chegando.
- Ele não vai passar às nove?
- sim
- Belita, são recém oito e cinco.
- Atá, pode falar então.
- E aí, tá lindona?
- É, eu coloquei uma roupinha especial. Se for um pedido de casamento estou preparada. Mas será que é isso?
- Claro Belita! Que mais podia ser? O Duk está apaixonado! Ele deve estar louco pra morar com você de vez.
- Ai Mimi, nem me fala. O que eu digo pra ele se for isso?
- Como o quê?
- É que eu não quero casar. Não agora. E nem sei se com ele.
- Mas Belita! Você não vai deixar escapar um cara como o Duk né? Você vai ter que adiantar seus planos, só isso.
- Ai, será. Nem falei com a mamãe sobre isso... É muito cedo. não faz nem um ano...
- Mas o que importa é que vocês estão bem, e o Duk vai te dar uma vida de princesa.
- É, isso é verdade. Ele é um amor mesmo. E vocês, já sabem que filme vão ver?
- Não, vamos ver lá. O Danilo quer jantar no shopping.
- Bem, melhor eu ir. Aproveita lindona.
- E você Belita, se acalma viu. Não tem motivos pra tanto nervosismo.
- Pode deixar.
- Boa sorte, e aproveita sua noite!
- Você também, beijos.
- Beijos.

Ainda faltam 35 minutos. E o Duk pedindo pra eu não me atrasar...



Eu quero emoção. Eu quero conhecer alguém surpreendente.
Eu quero acreditar que existam pessoas que façam as outras se sentirem bem. Estou precisando de alguém assim urgentemente.

*****

Entrega para o apartamento 601:
- Dois dedos enterrados na campainha pelo período total de 7 segundos.
- Bela nua e molhada saindo aos trancos e barrancos do box para atender o maldito da campainha.
- Porta que se abre abruptamente.
- E a frase ridiculamente deslavada : Sra. Bela Brandebuque? Assine aqui por favor.
- Flores.

Sem emoção alguma abri o cartãozinho com cara de tudo igual.
Óbvio que eram do Duk aquelas flores. Rosas amarelas. Desde que nos conhecemos ele manda as mesmas.
Será alguma simpatia? Será que ele leu alguma coisa em algum livro de auto-ajuda? Será que a floricultura que ele vai se chama Yellow Roses?
Claro que nunca pensei em reclamar das rosas. Amarelas ou amarelas, são sempre lindas.
Mas eu adoraria não saber de quem são, mesmo sendo sempre dele. Sair correndo do banho, abrir a porta e tchan! Rosas vermelhas! Ou flores do campo! Ou tulipas!
Fechei a porta, abri o cartão. Fechei a boca. Abri os olhos. Abri a boca.
"Jantar especial sexta para uma conversa muito importante. Te amo, Duk."
Aimeudeus, aimeudeus. Casamento. O homem decidiu se casar comigo.
O barulho do chuveiro ligado me fez voltar correndo pro banheiro e tomar uma ducha, agora bem gelada.




Capítulo 2

Bela por Bela:

- depila as pernas com pinça
- corta as pontas dos cabelos com cortador de unhas
- retoca a raiz todo mês
- malha quando tem vontade
- faz sexo quando não tem vontade também
- tem foto pelada na internet
- reza todas as noites
- tem poucos amigos
- tem poucos conhecidos
- tem amigos muito interessantes
- tem um namorado rico
- tem uma gata chamanda Monica Levi
- dorme muito menos do que gostaria
- rasga todas as fotos em que se acha feia
- faz bolo no liquidificador
- foi em motél duas vezes na vida
- transou com desconhecidos
- gozou com apenas um homem até hoje
- vai no cinema sempre que dá
- navega em 2 browsers ao mesmo tempo
- quer ser designer de jóias
- já pensou em ser cineasta e escritora
- já pensou em ser atriz pornô
- ama chocolate
- se odeia quando come chocolate
- falou eu te amo para um único homem em toda sua vida
- sente uma coisa muito estranha quando ouve Sinatra
- não sabe cozinhar
- raramente vai à manicure
- se acha bonita
- se acha feia quando acorda
- faz sexo como ninguém
- toma dois banhos por dia
- não conhece seus vizinhos
- não ri à toa
- não chora à toa
- tem um ótimo senso de humor
- ficar rica não está entre seus planos



Festão legal no sábado. Bebi, dancei e beijei bastante. Sinto como se minha cabeça tivesse sido a pista de dança.
Me sinto a Bela Adormecida, esperando o lindo príncipe Duk acordar e me despertar dessa ressaca.
Porra, o que eu estou fazendo no computador em plena manhã de domingo?! Nunca esqueço do diagnóstico : compulsão-obsesiva-compulsiva.
Vai ver dessa vez é o computador.
Vou dormir mais um pouco. Hoje é domingo mulher!





Estava experimentando umas roupas pra festa de hoje.
Saias, de todas as cores e modelos que possam existir eu tenho no meu armário. E eu nunca sei qual colocar.
Acho que qualquer modelo de roupa que ultrapasse o número de 5 peças já torna a tarefa da escolha um processo delicado e desgastante.
Mas dona Bela tem paciência. Se tem coisa que eu adoro é escolher a roupa da festa. Ainda mais quando estarão presentes namorado + amigas.
Preciso estar a mais gostosa. Fazer o Duk ter olhos só pra mim. E matar de inveja a mulherada barriguda que compra Boa Forma pra aprender dietas e exercícios.
E lá fui eu. O sol batendo na cama, a janela escancarada, Monica Levi dormindo no travesseiro, tv ligada na MTV e uma pilha enorme de roupas no chão.
Saia preta justa ( não preciso ficar citando que todas são mini ) + top preto = :-(
Saia preta com pregas + top preto = é...
Saia rosa jeans + body preto ultradecotado = uau, mas ainda não é isso.
Saia jeans azul claro + mini branca de renda = ficou borocoxo demais
Saia preta/branca rodada + top vermelho = adorei!
Saia branca + top preto = credo!
Saia cor de pele soltinha de microfibra + corselete preto = muy bela, Bela!
Vestido preto de camurça tomara-que caia + meia arrastão = muito prosti
Calça jeans de 200 reais + top de couro amarelo = gostei
Calça social preta + top jeans desfiado = nada a ver
Puts! Tem o sapato ainda! O sapato é a pior parte, odeio escolher sapato.
E minhas escolhas nunca formam uma boa escolha. Melhor decidir primeiro a roupa.
Depois de muitas tetas e bundas de fora fui ver uma galera de adolescentes ( que sorte! ) me olhando da janela.
Nem liguei. Fingi que não vi e continuei a jornada.
Minhas amigas ficam horrorizadas quando digo isso, mas eu nunca vou fechar a janela do MEU apartamento para trocar de roupa.
Querem ver, podem ver.
E ainda falta muita coisa pra eu experimentar.




Comprei uma calça jeans maravilhosa. Paguei R$200,00, o que deixa ela ainda mais maravilhosa.
Ela é justinha como eu gosto. Usei ela uma vez só, com um top de crochê, muito retrô por sinal, que herdei de minha finada avó.
Vovó era gatona na época de seus 20 anos. Vejo nas fotos o quanto eu sou parecida com ela.
Cabelos lisos, loiros, cinturinha fina, pernas longas e rosto sempre sério.
Eu sou assim. Não fico sorrindo sem motivo. Bom, mas continuando sobre a calça.
Foi um auê eu em plena Paulista de calça justa e top. Tive a impressão de ser cantada até por uma mulher.
O que será que a vovó deve estar pensando? Acho que não é bom usar roupas de gente que já foi.
Pior uma vez, que eu comprei um casaco em um brechó de NY.
Estava um frio horrível, e quando vou colocar as mãos nos bolsos tive um dos maiores sustos de minha vida: uma dentadura nojenta se grudou em mim.
Não preciso nem falar que tive um surto histérico.
Lembro que namorava um turco e ele estava comigo. O cara teve a coragem de me pedir a dentadura.
Help! Deixei o casaco e o turco ali mesmo.
A Mimi me ligou, tem festão esse sábado.
A mulherada toda vai lá pra casa fazer aquele ritual-pegarei-muitos-homens antes da festa. Prepare-se Bela, muitas roupas suas irão junto pra festa. Saco!

**********



Estou começando a pensar em trocar de emprego. Já devia ter trocado.
Trabalhar em pé, das 10h até às 18h, aturando todos os tipos humanos que a falta de educação cria e ainda ganhar pouco é foda.
Hoje eu decidi. Vou voltar a cursar design e procurar outro emprego. O Duk, meu namorado, diz que se eu casar com ele não preciso mais trabalhar.
Será que ele me acha insana? Vou trocar uma vida independente por um fogão, uma pia, uma vassoura e a novela das 8?
Não me faça rir honey. Minha vida está ótima assim. E quem disse que eu quero acordar e dar de cara com ele todo dia?
Aliás que eu, e somente eu, devo ser a primeira a ver meu rosto quando acordo. Tenho esse direito.
Nenhum homem vai ver minha cara de meia usada. Sim, ela existe. Mas apenas para mim.
Casamento é coisa séria. Nem sei se o Duk é o homem da minha vida. Ele diz que é. Porque me fez gozar.
Coisa que nenhum outro conseguiu. Será? É fácil assim escolher o homem da nossa vida? Não sei.
Bem, cheguei em casa com 10 cm a menos hoje. Depois de tanto tempo em pé nada como uma banheira e água quente.
E se ele ligar e quiser vir aqui pra casa só tenho uma coisa a dizer: hoje não baby, hoje não.





Capítulo 1

Olá, meu nome é Bela. Na verdade Bela é apelido. Se você se chamasse Beladona garanto que também teria apelido.
Graças à minha finada avó que tenho esse lindo nome. Bela Brandebuque. Prazer.
Na verdade nem sei se é prazer. Como poderia saber? Não sei quem está me lendo.
Não sei se é um pedófilo ou um mané que treina pitbull pra rinha. Mas mesmo assim vou me expor, preciso disso.
Preciso desabafar, contar o que se passa. Já foi a época em que eu me abria com minhas amigas, contava segredos e dizia todos os podres.
Não sou mais tão burra em confiar em mulher. Não nas mulheres que eu conheço. Pelo menos nos leitores eu posso confiar. Sei que irão me entender.
E melhor, sei que vão se limitar aos comentários desse blog. Se for mal-educado eu deleto.
Bom, eu tenho 20 anos recém feitos, mas parece que esqueci a cabeça nos 18. Isso às vezes.
Tem vezes que sou muito madura, mas minha mãe nunca está comigo nessas horas para ver.
É preciso ser madura em muitos momentos na vida. Nos outros eu prefiro ser inconsequente.
Quero viver da minha maneira e blá blá blá. Não sou alguém que precisa de grandes metas. Só não quero ser saco de pancada da vida.
Para a minha idade até que sou bem independente. Tenho meu apartamento, onde vivo com minha gata, Monica Levi.
Tenho minha conta no banco. Tenho minhas preferências bem definidas. Tenho um emprego.
E o mais importante de tudo, já tenho consciência do que é ser uma mulher de 20 anos com tudo isso.
Pior que amanhã eu tenho que ir pagar o IPVA do meu carro. Foda mesmo. Toda a grana que eu tenho. Quero ver como vai ficar pro fim de semana.
Mas , dá-se um jeito. Homem é pra isso mesmo. E eu vou mandar uma mensagem pro meu agora. Beijos e até amanhã.